CINEMA · COMPORTAMENTO · VIAGENS

PERDIDOS EM PARIS

 Um estilo singular de fazer cinema, misturando burlesco, clown, Jacques Tati e por aí vai…PERDIDOS EM PARIS, neste filme, o casal Dominique Abel e Fiona Gordon, apostam na beleza da capital francesa e, ainda ganham com umas das últimas atuações de Emanuelle Riva (1927-2017). O filme conta a história de uma senhora, ameaçada de ir para um asilo e que pede ajuda da sobrinha, em uma pequena e gelada cidade canadense. A sobrinha atrapalhada viaja sem demora, mas além de não achar a tia, perde roupas, dinheiro, passaporte e se enamora de um morador de rua sedutor. Boas risadas são garantidas nesta comédia belga perspicaz.

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CINEMA · COMPORTAMENTO · CRÔNICAS · LIÇÃO DE VIDA · SAÚDE

A VIDA (VELHA) COMO ELA É.       por Giuliano Cedroni

“Eu não sei.”
Depois de meses pesquisando a extensa e impressionante obra da fotógrafa anglo-brasileira Maureen Bisilliat, de mais de sete horas de conversas, de passar alguns dias com a lente da Alexa colada nessa senhora de 86 anos, essa foi sua frase mais corajosa.
“Eu não sei”, repetia ela para a câmera de tempo em tempo, não sem antes refletir ponderada e delicadamente a cada pergunta. Maureen, que se embrenhou nos fundões do Brasil ainda nos anos 1960 para revelar o Xingu aos brasileiros em fotografias clássicas, referia-se não às questões de enquadramento, luz e ótica, mas às grandes questões da vida, como amor, família, arrependimentos.O envelhecimento da população é um dos maiores triunfos da humanidade e também um de seus grandes desafios. A proporção de pessoas com 60 anos ou mais está crescendo mais rapidamente que a de qualquer outra faixa etária.

Até 2025, espera-se um crescimento de mais de 200% (algo em torno de 600 milhões) no número de pessoas consideradas velhas no mundo. Por mais que o mercado e a propaganda tentem esticar a juventude à base de slogans como “a melhor idade”, a velhice é um fato -e, pasmem, não é uma palavra pejorativa.
“De época remota”, “que tem idade avançada”, “que tem muito tempo de existência”. Eis algumas definições oferecidas pelo dicionário quando buscamos a palavra “velho”, que vem do latim vetulus. Em nenhuma existe a sugestão de que a velhice esteja inexoravelmente ligada a algo negativo.Ainda assim, a publicidade conseguiu convencer bilhões de pessoas de que ser considerado velho é das piores coisas que podem acontecer a um ser humano.

Por princípio ninguém quer contratar um velho, namorar um velho, abrir um negócio com alguém considerado velho. No entanto, quando nos deparamos com situações-limite na vida, é na velhice que, ironicamente, encontramos confiança. Basta precisar escolher um piloto para um voo ousado ou um cirurgião para uma operação de risco.
IMAGEM TABU
Foi por causa de dados e incongruências como esses que iniciamos uma análise midiática sobre o tema antes de rodar a série “Outros Tempos_VELHOS”, em cartaz no canal MAX (terças, às 23h).
A velhice é constantemente mencionada na imprensa, em novelas e em palestras, mas poucas vezes mostrada. É mais palatável levar um gerontólogo a um programa matutino para falar sobre Alzheimer do que ir à casa de alguém que está perdendo os sentidos para registrar o processo.
Também ficou claro na pesquisa que a imensa maioria dos programas e reportagens sobre a velhice no Brasil prefere olhar o tema sob uma perspectiva positiva. Senhores atletas, senhoras tatuadas e outros idosos animadíssimos inundam telas e páginas da mídia como se fossem um retrato fiel dessa classe.
Basta olhar ao redor para encontrar exemplos nada glamorosos da velhice: septuagenários deprimidos, senhorinhas sem recursos para arcar com os cuidados necessários, filhos que não sabem como lidar com essa etapa da vida dos pais…
Logo no início do processo de criação da série documental, impunha-se o desafio: mostrar a velhice de forma crua, mas digna, sem recorrer a especialistas ou estudiosos. Só ligaríamos as câmeras diante dos velhos e velhas acima dos 60 anos.
A SOLIDÃO DE NEY
Ney Matogrosso foi das figuras mais impressionantes a despontar no processo de definição dos 16 protagonistas. Aos 76 anos, alcançou equilíbrio raro entre ética, estética e postura. Postura em relação à arte, ao sexo, à política, ao dinheiro, à mídia, postura de corpo.
Foi no conceito do “ser independente” que o jovem filho de militar se encontrou, deixando para trás uma vida castradora para se transformar em grande artista. Pode-se não gostar da música de Ney, mas só o mais preconceituoso não respeitará a trajetória do intérprete que é, segundo ele próprio, “homem, mulher, ave, bicho… estrela”. Sobretudo, independente.
Essa independência, entretanto, deixou-lhe uma herança palpável na terceira idade, a solidão. Depois de ter vivido três grandes amores -um deles com Cazuza-, ele hoje vive só. Entre os treinos de academia, ensaios com músicos ou momentos dedicados a desenhar retratos de estranhos, atravessa a velhice sem companhia afetiva. “Agora vou ter que encarar mais essa”, diz, resiliente.
Em tempos de discussão febril sobre a reforma da Previdência, vale olharmos com mais afinco para essa fase da vida. Entre 1980 e 2000, a população brasileira com 60 anos ou mais cresceu 7,3 milhões, totalizando ao fim do século mais de 14,5 milhões de indivíduos. O aumento da expectativa média de vida também foi sensível, oscilando de 45,5 anos em 1940 para 75,5 anos em 2015.
Estudos contemporâneos já dão conta do nascimento de uma “quarta idade”, que começaria após os 80 anos. De fato, o octogenário é ser humano bem distinto de seu par com “apenas” 60 primaveras…
MAGNATA DO ADUBO
É o caso de seu Fernando Cardoso, com seus impressionantes 102 anos e aparência de 70. Ainda na juventude, nos anos 1940, ele atentou para o imperativo de produzir alimentos em escala. Fundou então a empresa de adubos Manah, aquela do slogan “Com Manah, adubando dá”.

Logo aquilo viraria um pequeno império. No ínterim, seu Fernando formou uma família enorme. No ano 2000, descansou satisfeito quando a empresa foi vendida por uma soma vultosa. Missão cumprida, faz crer o modelo capitalista ocidental. Mas a velhice é mais complexa do que imaginamos…Depois de perder a mulher, seu Fernando dispunha de algumas opções de moradia. Os filhos disputavam-no, alegando que a casa dele era grande demais para um homem só. Sem alarde, o industrial escolheu viver num lar de idosos.

Decidiu passar a fase final da vida ao lado de seus pares. Algo o deixa mais tranquilo ali, no casarão adaptado para cadeiras de roda e banhos assistidos, do que solitário em seu palacete.
Na conversa que tivemos para a série, a visão de seu Fernando sobre o ambiente ilustra a forma como o tempo brinca com anciãos. Diante da constatação de que o manejo dos recursos naturais pelo homem era visto com muito menos rigor na juventude dele do que hoje, palpita: “Esses ambientalistas fizeram uma confusão danada”.
HERMETO, O REBELDE
Hermeto Pascoal, 81, tem uma visão mais moderna da natureza. Na infância, passada no sertão de Alagoas, conheceu os deleites da mata de forma lúdica e nada monetizada. Caótico no pensamento, na maneira de viver e na sua expressão artística -a música-, Hermeto está mais conectado com o pensamento verde contemporâneo que seu Fernando, com quem divide um episódio do programa.
Enquanto o industrial não esconde o cansaço diante de tantas transformações, Hermeto é revolucionário -e isso até na forma como administra seus bens, as milhares de composições que criou ao longo da vida. Em determinado momento, ele abriu mão dos direitos autorais de sua obra, aplicando um magnífico golpe “copyleft” (livre direito de cópia) no coração do capitalismo.
O gesto de rebeldia, descobrimos ao nos aproximar de seu círculo íntimo, não levou em conta justamente a família, beneficiária da eventual herança.Dos 16 personagens retratados nos oito documentários (um famoso e um anônimo por episódio), nenhum causou tanto assombro na equipe quanto José Virgulino, o Zezinho, 76, que passou a vida na ilha do Araújo, em Paraty (RJ).

Católico fervoroso, pescou no mar o seu sustento e casou-se com Dorvalina. Logo veio a primeira gravidez, interrompida por complicações. Na segunda, novamente a criança não “vingou”. Ao longo da vida, dona Dorvalina engravidou dez vezes; em todas as ocasiões, a criança ou nascia sem vida, ou falecia dias depois do parto.
Quando o convidamos a participar da série, Zezinho tinha perdido a companheira havia apenas três meses. Sua visão de mundo, a maneira de lidar com a dor e a generosidade com a vila de pescadores são mais valiosos no estudo da velhice que volumes inteiros da sociologia moderna. Naturalmente e sem estudos formais, Zezinho foi virando o líder espiritual de sua comunidade, onde ganhou o apelido carinhoso de Pai Zezinho. 
Seu par no episódio é a mais pop das líderes espirituais no país, Monja Coen, 70, que alcançou status similar ao de Zezinho por caminhos distintos.
Depois de uma incursão pelo jornalismo, a jovem foi parar na Europa, onde acabou presa por tráfico de drogas.

Na solidão da cela, a meditação foi sua grande companheira, e daí para a vida monástica foi um caminho natural, afirma ela. Mas a sobreposição das duas trajetórias, minuto a minuto, cria uma terceira narrativa, a de que não controlamos a vida como desejamos.
Coen e Zezinho não poderiam ser mais diferentes, mas algo em suas vidas os aproximou. Não na forma, não no discurso, mas na necessidade de acreditar que é preciso haver algo mais nessa jornada que apenas peixe e jornal.
BRASIL IDOSO
Até 2025, segundo a OMS, o Brasil será o sexto país em número de idosos. Ainda há muita desinformação sobre a saúde do idoso e as particularidades e desafios do envelhecimento populacional para a saúde pública. Mas é fato que os brasileiros vão viver mais e que a população vai envelhecer.
Um caso de envelhecimento excêntrico é o da editora de moda Regina Guerreiro, 77. Aquela que foi por décadas a mulher mais temida e respeitada da indústria da moda no Brasil dedicou sua vida ao trabalho. Casou-se várias vezes, mas não teve filhos, e nunca escondeu que sua grande paixão estava na vida profissional. Passa os fins de semana sozinha, lembrando seu passado glamoroso enquanto dirige a criação de uma versão fantasiosa de seu próprio funeral.
Vilma Nishi, 67, é a personagem mais nova. Depois de uma temporada trabalhando como enfermeira em hospitais, começou a estudar os benefícios do parto normal e transformou-se numa das parteiras mais procuradas do Brasil.

Divorciada e com duas filhas, hoje toma conta de sua mãe, uma senhora acamada que mais parece personagem do cineasta japonês Akira Kurosawa. Essa casa, com quatro mulheres de diferentes idades, é dos lugares mais simples e intrigantes de toda a série. Ali não há grandes obras de arte nas paredes (como na casa de Emanoel Araujo), ou uma biblioteca singular (como no escritório de Hélio Bicudo). Mas algo insiste em chamar a atenção. Logo se percebe que é o amor, matéria-prima de que Vilma se serve fartamente na construção de sua velhice.
É respectivamente com Regina e Vilma, com a imagem de uma morte encenada e a de um parto bem real, que o retrato da velhice no Brasil se abre e se fecha.
Muitos me perguntam o principal aprendizado que a longa pesquisa sobre a terceira idade legou. Minha resposta é a de que a velhice é a soma de todas as nossas decisões -certamente a das grandes, como a relação com família e amigos, a escolha da carreira, o fato de ter ou não filhos, a posição política.Ao mesmo tempo, muito tem a ver com as decisões médias, como o abandono de uma faculdade, a troca repentina de emprego, o investimento numa grande viagem.

Mas a velhice também é, curiosamente, a soma das pequenas decisões do cotidiano, como o “sim” para o almoço repentino com um amigo distante e o “não” para um trabalho desrespeitoso, porém lucrativo. Ou o simples ato de baixar o celular numa praça para observar as pessoas à volta.
Como me ensinou um velho cearense, tudo o que pensamos e falamos não chega perto, em importância, da maneira como agimos. Contudo, basta uma reflexão mais calma sobre o que aprendi com a pesquisa acerca da velhice para me confrontar mais uma vez com a frase de Maureen: “Eu não sei”.

*GIULIANO CEDRONI,* 44, fotojornalista, repórter e roteirista, escreveu e codirigiu, ao lado de Eduardo Rajabally e Susanna Lira, a série “Outros Tempos_VELHOS” (Prodigo Films), em exibição no canal MAX.  Texto extraído do jornal Folha de SP, caderno ilustríssima em 20/8/17

COMPORTAMENTO · VIAGENS

A descrição dos lugares por García Márquez é fruto da vida e da literatura. Por Josimar Melo

Voltando esta semana do Peru, achei de bom alvitre ler no avião um autor de língua espanhola, para fingir que conheço o idioma e não admitir meu horroroso sotaque apátrida em qualquer dos países onde pise. Socorri-me de um livro que justamente navega impressões de viajantes.Nos seus “Doze Contos Peregrinos” o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) buscava, como diz no prólogo, “escrever sobre as coisas estranhas que acontecem aos latino-americanos na Europa”.
Demorou 18 anos para concluí-los, em abril de 1992. São, na minha iletrada opinião, contos desiguais ou que pelo menos me capturaram em níveis diferentes de fruição.
Mas em todos fui dominado pela admiração diante da forma com que ele, jornalista desde os 21 anos, entregava a atmosfera dos lugares por onde perambulavam seus personagens.
Seus relatos, variando dos mais aos menos intrigantes, e curiosamente repetitivos em mais de um caso, se desfocavam enquanto detrás da narrativa ganhava o primeiro plano, com cores e vida, a descrição dos locais.Quantas vezes você já não leu relatos -técnicos e burocráticos- de lugares como Barcelona, Paris, Viena ou Genebra?

Mais quantas vezes leu que, na manhã de inverno, “os cafés e as lojas estavam iluminados como se fosse meia-noite, pois era uma terça-feira típica dos janeiros de Paris, encapotados e sujos, e com uma chuvinha tenaz que não chegava a se concretizar em neve”?
Quantas lindas descrições já leu sobre Barcelona, e que em nada se parecem com uma “tarde glacial de novembro, quando se precipitou uma tormenta súbita” diante da qual a personagem “mal teve tempo de abrigar-se nos portais de um bairro deserto que parecia outra cidade, com armazéns em ruínas e fábricas empoeiradas, e enormes furgões de carga que tornavam o estrépido da tormenta ainda mais pavoroso”?
Talvez em Vázquez Montalbán. Mas ele não deve ter falado da toscana Arezzo “num domingo de princípios de agosto, ardente e buliçoso”, em que “era difícil acreditar que naquela colina de casas empoleiradas onde mal cabiam 90 mil pessoas houvessem nascido tantos homens de gênio perdurável” -e onde o narrador jantaria “debaixo de um céu de malva com uma única estrela”.
García Márquez descreve a Roma que “depois do almoço sucumbia no torpor de agosto. O sol do meio-dia ficava imóvel no centro do céu, e no silêncio das duas da tarde só se ouvia o rumor da água, que é a voz natural de Roma. Mas lá pelas sete da noite as janelas se abriam de repente para convocar o ar fresco que começava a se mover.”
E assim ele descreve as terríveis borrascas trazidas pela tramontana na espanhola Cadaqués, o clamor de trovões escuros num mar que se bastava de sua própria luz na ilha italiana de Pantelleria, e mais tantos momentos físicos Europa afora.
Mas o melhor vem no começo. Depois de nos extasiarmos com a aguda sofisticação com que descreve as paisagens, nos transportando com tanta fidelidade àqueles momentos, lemos no prólogo (o que sempre faço no final) que não é bem assim.
Quando finalmente concluiu os contos para publicá-los, García Márquez diz que “quis comprovar a fidelidade de minhas recordações [sobre as cidades] quase vinte anos depois, e empreendi uma rápida viagem de reconhecimento a Barcelona, Genebra, Roma e Paris”.
Conclusão depois disso: “Nenhuma delas tinha nada a ver com minhas lembranças. Todas […] estavam rarefeitas por uma inversão assombrosa: as recordações reais me pareciam fantasmas da memória, enquanto as recordações falsas eram tão convincentes que haviam suplantado a realidade. De maneira que me foi impossível distinguir a linha divisória entre a desilusão e a nostalgia. Foi a solução final.”
Ele então reescreveu todos os doze contos peregrinos em oito meses, sem se preocupar mais em se perguntar onde terminava a vida e onde começava a imaginação. 
Matéria extraída do jornal Folha de São Paulo em 17/08/2017 – caderno Turismo

COMPORTAMENTO · SAÚDE

UMA CASA DE CONVIVÊNCIA LGBT PARA IDOSOS

Neste ano, recebemos em nosso gabinete membros da sociedade civil para discutir sobre a instalação de um novo serviço na Cidade de São Paulo, um Centro de Convivência LGBT para pessoas de terceira idade. O Coletivo Eternamente Sou, por exemplo, luta para que a cidade de São Paulo ofereça espaços de convivência específicos para idosos LGBTs, como os que já existem em países como Alemanha, Espanha, Portugal, Suécia e Holanda. 

A proposta do Centro é a oferta de um serviço de proteção social, convivência e fortalecimento de vínculos aos idosos com idade igual ou superior a 60 anos em situação de vulnerabilidade e risco pessoal e social. Que possa oferecer atividades socioeducativas planejadas, baseadas nas necessidades, interesses e motivações dos idosos, conduzindo na construção e reconstrução de suas histórias e vivências individuais e coletivas, na família e no território. 
A luta das pessoas LGBTs pelo reconhecimento na velhice existe porque quando chegam à terceira idade passam a ser ignorados ou rechaçados até mesmo dentro do próprio grupo de homossexuais, e não raro são apelidados com nomes pejorativos. Desse modo, configuram-se como sujeitos que se encontram à margem da própria margem. 
No entanto, depois de anos de luta do movimento LGBT, é inegável que as causas ganharam visibilidade e que, aos poucos, os direitos civis são concedidos a esses indivíduos. Todavia, ao se falar na figura do homossexual, temos comumente uma imagem juvenil, sendo pouco vista a sua representação como um idoso. 
Se você acredita nessa causa, apoie essa iniciativa. Queremos um Casa de Convivência LGBT para idosos.
*Entregaremos as assinaturas para a coordenadoria de políticas LGBTS da cidade de São Paulo 
Mandato Vereador Toninho Vespoli – PSOL/SP

CRÔNICAS · ERA ASSIM... · GENTE QUE ENCANTA · LIÇÃO DE VIDA

Amizade é tudo

No tempo em que as famílias eram grandes, bastava a presença dos primos, dos dois lados, para se ter uma festa.
A família ampla fazia a vida ser muito diferente, mas quando cada casal tem um par de filhos e estes apenas três ou quatro primos, acabamos convidando outras pessoas, de fora da família, para fazer uma celebração. Do contrário, teremos apenas um pequeno encontro entre amigos e conhecidos, ficando um vácuo afetivo nessas relações.
Já vai longe o tempo em que primos entre si enchiam o salão e até a igreja em dia de batizado ou casamento. Amigos eram então um anexo; hoje os primos é que são os anexos. Essa situação moderna, de ausência de numerosos primos, ampliou o espaço da amizade.
Amizade é afeto, atenção, carinho, lealdade, mútua proteção. Tudo o que antigamente era função obrigatória dos membros da família.
A facilidade dos transportes modernos abriu espaço para que familiares se afastassem e as amizades substituíssem esses laços, rompidos pela distância.
Imagine só quando um pequeno núcleo familiar mudava de país ou continente -no local da nova residência criavam-se outros laços.
Surgiram assim novas conexões afetivas, sendo a amizade a mais importante delas.
Família e amizade se intercalam hoje. Muitas organizações sociais surgiram neste vácuo: congregações e clubes são tentativas de reunir oriundos de mesmo passado.
Clube de Inglês, Clube de Francês, Clube de Alemão, entre outros, eram instituições comuns no começo do século 20.
Há cerca de 50 anos, quando um jovem artista cismava de morar em Paraty (Rio de Janeiro) ou Ouro Preto (Minas Gerais), por exemplo, ele tinha que ir à telefônica marcar dia e hora para se comunicar com a família. Grandes amizades eram fixadas entre desterrados.
Quando, na década de 1950, foram abertas faculdades pelo interior do país, houve grande movimento de intelectuais que se encontravam nesses novos núcleos e constituíram-se em grandes amigos.
A amizade apoiou-se nos novos meios de transporte e comunicação. Permitiu o desterro voluntário, repetindo o que ocorreu a partir de 1600, quando se colonizou a América e a Oceania, com gente que veio de toda parte e se encontrou ao acaso.
A intensidade do deslocamento e a facilidade de comunicação adubaram os afetos locais.
Não é que antes não existisse amizade, mas ela era eventual. Com o desterro voluntário, disseminou-se.
Hoje, amizade é tudo.
Amizade é modernidade!
ANNA VERONICA MAUTNER é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora); texto extraído do Jornal Folha de São Paulo, 11/08/2017