LIÇÃO DE VIDA

MOVIMENTO. Por Ana Jácomo

Foi quando começou a não se importar tanto de sentir tanto medo,

que ouviu o convite, ainda tímido, quase um sussurro, do próprio coração,

esse sabedor do que, de verdade, importa.

“Volta, com medo e tudo”.

Foi.

E começou a descobrir que coragem, na maioria das vezes, é apenas voltar para o próprio coração.

É apenas calar a ausência devastadora e infértil dele.

É apenas sair do lugar para um ponto um pouquinho mais espaçoso e espalhador de sementes.

É apenas seguir com medo e tudo.

COMPORTAMENTO

JOGOS

Eu estava de férias. Precisava me alienar de tudo um tanto. Confesso ter sido difícil saber sobre Brumadinho – uma dor que se instala, faz o peito pesar e dá uma vontade imensa de sair abraçando todo mundo para sentir que humanidade ainda existe.

Pouco antes de voltar, vi a zona de guerra instalada no Senado e outras tantas metáforas do “mar de lama” novamente encenadas histriônicamente. Cabe lembrar que a paternidade da expressão é atribuída à Getúlio Vargas, quando relatou a um coronel da Aeronáutica a decepção que sentiu ao constatar as jogadas corruptas do chefe de sua guarda pessoal. “mardelama” é senha para corrupção desenfreada – imagem feroz – coisa que remete ao atraso em tempos tão urbanos.

     Nos idos tempos do Século XX, uma americana chamada  Elizabeth Magie, por meio do Jogo do Senhorio, desenvolveu a base do que seria o Banco Imobiliário – um dos jogos de tabuleiro mais conhecidos e coisa muito popular na classe média de ontem, descobertos como uma super ferramenta de comunicação, inclusive para evidenciar como o monopólio gera desigualdade e pobreza. Os jogos são uma ferramenta poderosa para incitar reflexões e questionamentos que gerem mudança. 

Com essa ideia na cabeça, num Brasil de 2015- onde o cenário era de fervor e indignação – nasceu o Fast Food da Política – uma organização que desenvolve e aplica processos educacionais que usam elementos e estruturas de jogos, como ferramentas para disseminar o aprendizado de conteúdos complexos. São mais de 20 passatempos disponíveis no site do projeto e 90 protótipos que abordam as bases e funcionamento dos três poderes, o processo eleitoral e políticas.

É difícil encarar os desafios? Sem dúvida. Mas é possível fazer parte da mudança – desde que saibamos o que queremos e por que queremos. Desde que estejamos juntos. Só entendendo as regras do jogo é que seremos capazes de escolher os jogadores certos e evitar que outros maresdelama nos devastem.

 

 

COMPORTAMENTO

Envelhecer. Por Albert Camus

“Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.

A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.

O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, não é havê-las cometido…é sim não poder voltar a cometê-las.

Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.

Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta.

Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.

O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…

Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.

Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são.

A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.

Nada passa mais depressa que os anos.

Quando era jovem dizia:

“verás quando tiver cinqüenta anos”.

Tenho cinqüenta anos e não estou vendo nada.

Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.

A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.

Sempre há um menino em todos os homens.

A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.

Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.

Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.

Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.

Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.”

COMPORTAMENTO

SOBRE ASAS…

Somos assim: sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
~ Dostoiévski

GENTE QUE ENCANTA

Irene e Teresa. por Pedrinho Fonseca

Num banho, a temperatura ideal para dois não existe. Na vontade de ter a água mais quente, fecha-se um pouco o registro. Na esperança de esfriar, abre-se tudo. Nesse vai-e-vem, minha-vez-sua-vez, deixa-que-eu-cuido-disso, a única coisa que acontece mesmo é a água não ficar quente do jeito que um quer, nem fria como o outro queria. Quente demais? Esquiva. Fria demais: arrepio. Testa-se, antes, com as extremidades. Os pés, os dedos das mãos. O mergulho vertical só acontece com a segurança de que a água está de acordo com o que o corpo espera. Espero que vejam nisso, filhas, o que são as relações. E de onde parte a tolerância com o que é a vontade do outro. A temperatura ideal para dois nunca virá. Hoje, talvez ela esteja mais quente do que queremos. Amanhã, pode ser que esteja perfeita para nós –  e fria demais para o outro. E que assim, dia após dia, a gente se abrace, dance, pule, se arrepie, se esquive, descubra com a ponta do pé se dá para entrar ou não, brinque com isso. E que o amor nos banhe. E que as diferenças escorram pelo ralo.

Do seu pai,
Pedro.

Pedro Fonseca, é pai de João, Irene, Teresa e Joaquim. Casado com Lua. Escritor, fotógrafo e roterista. Autor do livro Do seu pai – textos que escreveu para seus filhos como se fossem uma carta, publicados em seu blog e depois transformados em livro. Na versão original, no blog, há uma foto linda das meninas.

GENTE QUE ENCANTA

Todos vamos envelhecer…

Nosso país avança rumo a se tornar um país de anciãos. Em algumas décadas, teremos ainda muito menos nascimentos e muito mais pessoas na faixa dos 75 anos, idade proposta pelo governo interino do momento para aposentar as pessoas: na hora da morte. Enquanto, segundo os versos de Bandeira, “a indesejada das gentes” não chega, a escritora Adélia Prado, em seu livro “Erótica da Alma”,  nos passa super dicas para envelhecer com viço e ternura. Vejamos:

Todos vamos envelhecer… Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. 

A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente.

Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar. 

Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. 

Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios.

Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.

Adélia Luzia Prado de Freitas,  ou simplesmente Adélia Prado , é cidadã mineira de Divinópolis (13 de dezembro de 1935) que deu de passar por essa vida como professora (por 24 anos), filosofando, escrevendo contos e poetando sobre o cotidiano em um estilo único, carregado de grança, e valorização do universo e o verbo feminino. by Xapuri.info