COMPORTAMENTO

Cerca de 40% dos idosos que vivem em São Paulo nunca foram ao teatro

Uma pesquisa no estado de São Paulo mostra que tem muita gente que nunca foi ao teatro e nunca foi ao cinema.  E principalmente, mostrou esse estudo, que são as pessoas da terceira idade que estão deixando de aproveitar o teatro, o cinema. Tanta opção boa que tem em São Paulo.

A explicação, infelizmente, é triste. Muitos idosos não têm dinheiro para ir a cinema, shows. E por problemas de locomoção e acesso não conseguem chegar aos locais com programa de graça.

Mais de 8 mil paulistas foram ouvidos na pesquisa que faz um retrato dos hábitos culturais do estado.

O que você faz no seu tempo livre? Se diverte?

“Sempre procuramos, pelo menos duas vezes por mês ir ao cinema”, diz uma mulher.

“Ir ao cinema, ao teatro”, diz uma jovem.

Cinema é a resposta de 75% dos paulistas de 12 a 24 anos. Também é o programa mais popular para 62% entre os que têm de 25 a 34 anos.

“É o que me inspira e me faz viver também”, diz outra jovem.

E o que esses jovens e adultos menos fazem é assistir a espetáculos de dança e concertos.

Falta de informação para poder despertar para um mundo novo, diz o administrador de empresas Paulo Eduardo Rocha Santos, de 30 anos.

Quanto menos escolaridade, menor o interesse por atividades culturais. Um exemplo disso são as pessoas que nunca pisaram numa sala de cinema. Na nova classe média, isso é realidade para 14% das pessoas com formação superior e para 22% dos que fizeram só o ensino fundamental.

A pesquisa ouviu 8 mil moradores de 21 cidades do estado de São Paulo com mais de 100 mil habitantes. Nessas cidades, vive metade da população do estado.

A pesquisa também deu atenção especial a um outro público: o idoso. E constatou que esse grupo é o grande excluído cultural. Para se ter uma ideia, de cada 10 deles, quatro chegaram à terceira idade sem nunca ter visto uma peça de teatro.

“Eu costumo ir com a minha filha. Quando a minha filha compra a entrada e me convida eu aproveito e vou”, diz a aposentada Encarnação Ribas Cinquini, de  89 anos.

“Eu acho a dificuldade de locomoção. Eu acho o preço, o custo… porque o idoso normalmente não tem tantas posses, não é todo mundo que tem”, afirma a aposentada Celia Marisa Cinquin.

Esse produtor cultural concorda. E acha que o pessoal da terceira idade merece curtir mais essa fase da vida.

Se a gente está prorrogando a vida e as pessoas vão poder chegar aos 70,  80 anos e, daqui a pouco, aos 90 anos com uma saúde boa, uma saúde razoável, a gente imaginaria que elas iriam justamente poder aproveitar de tantas coisas que a gente muitas vezes não pode fazer porque está ocupado, está trabalhando, diz o produtor cultural José Luiz Goldfarb.

Além de revelar os setores que ainda precisam de mais ações culturais, a pesquisa também traz algumas curiosidades.

Por exemplo, Chico e Ana Paula, vocês arriscariam dizer qual é o tipo de música preferido do paulistano? Vou dar uma dica: “nestes versos tão singelos minha bela, meu amor, pra você quero contar o meu sofrer e a minha dor”.

É “Tristeza do Zeca”.

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COMPORTAMENTO

ENCURTANDO DISTÂNCIAS Por Israel Belo de Azevedo

Mesmo quando passamos a ver a vida sem cor, sabemos que ela é colorida.

Mesmo que nos vejamos como indignos da admiração alheia, sabemos que temos virtudes de sobra.

Mesmo que os fantasmas nos habitem e nos atemorizem, sabemos que eles não existem.

Mesmo que uma ideia boa nos entusiasme, nem sempre ela produz resultados práticos em nossas experiências.

Mesmo que saibamos que determinado comportamento deva ser adotado, nem sempre o tornamos parte de nós.

Mesmo que cantemos sobre o amor, nem sempre estamos amando.

Mesmo quando dizemos querer abandonar um vicio, nem sempre o deixamos ao longo da nossa caminhada.

Dois palmos, nesses casos, nos separam: a distância entre a caminhada e o coração.

Esses dois palmos são a distância entre a felicidade e a infelicidade, entre a serenidade e o desespero, entre a paz e a angústia.

Precisamos encurtar essa distância. O coração precisa subir. O que está na mente precisa descer.

Os dois precisam se aproximar.

A teoria precisa dar as mãos à prática.

O discurso precisa se realizar na realidade das coisas.

A certeza afirmada pelos lábios precisa estar na palma das mãos.

A fé precisa ser forte para não sucumbir sob a avalanche da insegurança.

É com a esperança que canta no cérebro que os passos precisam ser dados. Unidos, mesmo em suas diferenças – necessárias diferenças – cérebro e coração atravessarão perigos, rechaçarão adversários, vencerão obstáculos, empreenderão sonhos, descortinarão amanhãs.

Cérebro e coração precisam afinar o modo como veem a vida, para que ela valha a pena.

COMPORTAMENTO

Clientes idosos têm dinheiro, mas não recebem atenção. Por Luciana Casemiro

População acima de 60 anos passa dos 30 milhões, mas mercado ignora suas necessidades e desejos

RIO – Eles já são mais de 30 milhões, têm a maior renda mensal entre os ocupados de todas as faixa etárias do país, R$ 2.815, contra a média geral de R$ 2.080, segundo dados do IBGE. Apesar disso, brasileiros com 60 anos ou mais se sentem excluídos ou maltratados pelo mercado. Segundo especialistas, a falta de adequação de comércio e serviços para esse público é fruto de desconhecimento e preconceito. Estudo realizado com os cinco maiores institutos de pesquisa do país, feito pela publicitária Ana Gabriela Sturzenegger Michelin, mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP, revela que nenhum deles ouve a opinião de quem tem mais de 55 anos.

— E não há previsão de revisão dessa prática. Ao conversar com gestores de grandes empresas de diferentes áreas, como telecomunicações, alimento, beleza e turismo, eles admitem que há Entre 2012 e 2017, a fatia da população brasileira com mais de 60 anos cresceu cerca de 15%. O incremento da parcela com mais de 80 anos foi ainda maior, 21%. Bem disposta, conectada e antenada, Tiana Simplício, professora aposentada, de 85 anos, é uma das representantes desse público que sente os reflexos de uma sociedade despreparada para lidar com o idoso. Um repórter do GLOBO acompanhou a professora, na última quarta-feira, pelas agitadas calçadas da Praça Saens Peña. Ela foi sucessivas vezes empurrada por andar mais devagar. Recentemente, numa loja de roupas, Tiana diz ter percebido o conflito entre gerações:

— Só tínhamos eu e mais uma outra mulher na fila. Ela era bonita, jovem e loira e estava conversando sobre vários assuntos com a caixa. Era sorriso para cá e para lá. Quando chegou a minha vez, a operadora foi bem ríspida.

Tiana também precisa observar se no local há acessibilidade:

— Aprendi que a gente precisa respeitar os limites do nosso corpo — disse, ao optar por entrar na farmácia usando a rampa.

Segundo Fátima Lemos, assessora técnica do Procon-SP, atendimento e infraestrutura adequados estão entre as queixas mais comuns dos idosos:

— Esse público necessita de um atendimento pessoal, de mais tempo e design adequado de produtos. São consumidores mais vulneráveis e que sofrem diversos abusos nas relações de consumo, desde práticas inadequadas das instituições financeiras até as vendas no varejo.

Foco do varejo ainda é o jovem

O médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC Br), afirma que os brasileiros com 50 anos ou mais concentram, hoje, cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB), o que corresponde a R$ 1,6 trilhão.

– São pessoas com poder de compra e de influência, mas que são ignoradas por puro preconceito. Em 2050, o Brasil vai ser uma grande Copacabana, com cerca de 30% de idosos. As empresas que quiserem fazer dinheiro têm que atrair os idosos. Serviço, tecnologia e design têm que responder ao envelhecimento da população. O atendimento hoje discrimina.

Para Antonio Carlos Pipponzi, presidente do Conselho do Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV) e do Conselho de Administração do grupo RaiaDrogasil, as farmácias saíram na frente quando se fala em adequação do atendimento. Segundo ele, o setor hoje valoriza o relacionamento com o idoso. O varejo, de forma geral, admite, está focado no jovem:

— O mercado é muito competitivo e, cada vez mais, o idoso é parte importante, naturalmente, esse movimento de adaptação vai acontecer e vai para além de rampa de acesso e atendimento preferencial.

Nice Cavalcanti, de 85 anos, queixa-se do que se considera básico: o atendimento prioritário:

— Vou muito a mercado, principalmente aos domingos. Reclamei com um gerente, e ele me disse que, no domingo, “quem chegar primeiro é que vai”. Acho que os funcionários deveriam ser treinados a prestar atenção nisso. E quase não vejo prioridade especial para quem tem mais de 80 anos.

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) não respondeu às perguntas sobre como o setor se prepara para atender ao idoso. Já Lenício Barbosa, diretor de Operação dos Supermercados Guanabara, conta que sempre foi alta a fatia de pessoas acima dos 70 anos na rede:

— Os idosos são um público muito leal. O atendimento precisa ser diferenciado, pois o idoso faz as compras com calma, no tempo dele e como se fosse lazer. Esse público precisa se sentir acolhido. Encartes e cartazes sempre aparecem com letras grandes, os corredores são largos para facilitar a passagem, e as unidades têm esteiras para os carrinhos de compra. Algumas já oferecem até motos elétricas a quem tem mobilidade reduzida.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também disse não desenvolver qualquer política setorial para atender aos idosos. Para o caso de concessão de crédito, no entanto, a federação criou uma cartilha voltada para essa faixa etária. Com três milhões de clientes com mais de 60 anos, o Itaú diz ter desenvolvido um app simplificado com foco nas necessidades desse público.

— Cuidamos desde a quantidade de palavras por tela até o fato de termos botões maiores para facilitar o toque. Nas agências, há pessoas para auxiliar esse público, inclusive para o uso da tecnologia — diz Wagner Sanches, diretor executivo do Itaú.

Cerca de 21% do total de correntistas do Banco do Brasil têm 60 anos ou mais, diz Rodrigo Vasconcelos, gerente executivo da Diretoria de Clientes Pessoa Física do Banco do Brasil.

— Hoje, um dos maiores desafios do BB é oferecer o melhor atendimento nos seus diferentes canais. A presença física continua importante, principalmente, para esse público da melhor idade. Atualmente, do total de clientes com mais de 60 anos, cerca de 15% podem ser considerados como digitais — explica Vasconcelos.

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A Caixa também identifica as agências com atendimento prioritário para os idosos e acrescenta que há orientação para que o cliente entenda a segurança das transações remotas. Já o Bradesco informa que cerca de 82% dos dez mil beneficiários do INSS da sua base de clientes usam autoatendimento, app e Internet Banking.

Procuradas, Apple e Samsung, empresas que trabalham com produtos de alta tecnologia, desafiadores para os idosos, não se pronunciaram. O SindiTelebrasil, que representa as operadoras de telefonia, disse não haver discussão setorial sobre os idosos. Entre as grandes operadoras, só a Vivo respondeu. Diante do crescimento significativo do mercado de 60 anos ou mais, a empresa oferece, desde o fim do ano passado, um workshop para a terceira idade, que aborda de conceitos básicos de tecnologia até a orientação sobre o melhor uso de redes sociais e aplicativos.

Em 2017, realizamos uma pesquisa de mercado com foco no público sênior. É um segmento cada vez mais conectado e que não usa todos os recursos e possibilidades que a tecnologia permite por falta de informação — ressaltou Fernando Rheingantz, diretor da Vivo.

COMPORTAMENTO

O risco do ‘nós contra eles’ envenenar as relações entre gerações. Por Marizak Tavares

Baby boomers são acusados pelos mais jovens de cobiça e egoísmo, por terem garantido benefícios mais generosos para si.

Na Europa, de um modo geral, e na Grã-Bretanha, particularmente, vem crescendo uma espécie de mal-estar que pode se transformar num “nós contra eles” de consequências imprevisíveis. De um lado estão os baby boomers, uma geração que conseguiu acumular mais riqueza que as anteriores e agora se aposenta também mais protegida do que aquelas que a antecederam. Do outro, os millenials, nascidos entre 1980 e o fim dos anos 1990, chamados dessa forma porque chegaram aos 18 anos depois do ano de 2000: atolados em dívidas para pagar o crédito universitário, com empregos mal remunerados e sem perspectiva de casa própria.

Os baby boomers inventaram a adolescência, a contracultura, a revolução sexual e se tornaram um enorme grupo de adultos maduros e autoconfiantes. No entanto, agora são acusados pelos mais jovens de cobiça e egoísmo, por terem garantido benefícios para a sua geração – que continua com o poder nas mãos – que serão negados às seguintes. A polêmica começou a ganhar corpo em 2010, quando foi lançado o livro “The pinch: how the baby boomers took their children´s future and why they should give it back” (em tradução livre, “O roubo: como os baby boomers tomaram o futuro de seus filhos e por que têm que devolvê-lo”). O autor, o ex-ministro britânico David Willetts, chamou o acúmulo de riqueza dos baby boomers de “quebra de contrato” entre gerações.

A ideia ganhou tantos adeptos que gerou inclusive uma organização extremamente combativa, a Intergenerational Foundation, responsável por um índice para medir a desigualdade entre baby boomers e millenials. David Willetts, que atualmente está à frente da Resolution Foundation, um think-tank voltado para melhorar as condições de moradia para a população de baixa renda, criou uma comissão intergeracional para investigar as condições de vida dos millenials do país com o objetivo de “reparar o contrato social” existente. Ao jornal “The Guardian”, declarou: “os baby boomers são culpados pelo fracasso monumental em proteger os interesses das futuras gerações”. Depois de dois anos de trabalho, a entidade divulgou sua proposta nesta terça-feira: todo britânico que chegasse aos 25 anos deveria receber dez mil libras – o equivalente a pouco mais de R$ 48 mil – como uma espécie de “reparação” pela situação adversa que essa geração enfrenta. O dinheiro viria de um aumento na taxação de heranças.

No entanto, nem todos concordam em alimentar esse clima de Fla x Flu entre jovens e velhos. Na contramão da polarização, a Generations United prega em seu slogan que “juntos somos mais fortes”. Seu trabalho se baseia em modelos familiares existentes em muitos países, como o de diversas gerações convivendo sob o mesmo teto, ou avós que criam os netos porque os filhos enfrentam dificuldades ou situações extremas como o encarceramento ou a dependência de drogas. Sua cartilha versa sobre a necessidade de tecer uma rede de proteção para que todos se ajudem mutuamente e não deixem as pontas mais frágeis, crianças e idosos, sem amparo. É nesse time que todos devemos jogar.

COMPORTAMENTO

Reflorestamento Social: novos laços na velhice. por Gal Rosa

Observo que, no Brasil, parte das pessoas no final da fase adulta e início da velhice tem dificuldade de estabelecer novas relações sociais, gerando enxugamento no círculo de apoio.

Pensando nisso, comecei a analisar o contexto social do idoso à semelhança de florestas: está arborizado ou desmatado? Se for o segundo caso, quais ações podem acontecer para que haja o reflorestamento social, na medida do desejo de cada um?

O desmatamento social pode acontecer durante todo curso de vida. Em alguns momentos, paramos de nos relacionar com algumas pessoas próximas. Também diminuímos muito o contato com elas devido mudanças de escola, faculdade, residência e cidade, estado ou país… Mudanças de emprego ou projeto, desemprego, separação ou divórcio, doenças incapacitantes e mortes, entre outros. Tais acontecimentos podem abrir espaço para o processo de reflorestamento social. 

E o que venha ser isso? Quando criamos novos laços relacionais nos ambientes que começamos a frequentar como escola, vizinhança, cidade, emprego, instituições de recolocação profissional, cursos, etc.

Desmatamento e reflorestamento social são processos bastante individuais, têm contornos culturais diferenciados e variam em relação ao momento histórico em que se vive.

A questão não é o desmatamento social, pois perdas (em maior ou menor grau) acontecem a vida toda, com todo mundo. O desafio aparece quando o reflorestamento não ocorre devido a crenças pessoais e sociais limitantes.

A primeira, individual, é a crença de morte próxima. É comum pessoas saudáveis entre 60 e 90 anos dizerem que:”não vale a pena o esforço de estabelecer novas relações, desenvolver habilidades ou adquirir conhecimentos por que logo morrerão.

Respondo que pessoas longevas chegaram até os 120 anos, ou seja, é possível que vivam mais 60, 50, 40, 30 anos. Essa informação normalmente é recebida com espanto pelos meus interlocutores e percebo que não se prepararam para viver tanto.

No imaginário social, a velhice está associada à improdutividade, inatividade, fragilidade e doença. Dessa forma, é frequente observarmos discursos e ações limitantes em relação às pessoas com 60 anos ou mais.

Exemplo claro é a dificuldade de encontrar postos no mercado de trabalho. Também acompanho filhos e netos que acreditam ser tarde demais para seus pais e avós frequentarem escolas ou universidades. Ou sugerem que não saiam de casa porque sofreram quedas e podem cair novamente. Ou acham que devem manter seus casamentos infelizes porque estão muito velhos para buscar a felicidade em outras relações.

Essas crenças limitantes impedem ou dificultam que o reflorestamento social aconteça.

DICA DE LEITURA

O Apanhador no Campo de Centeio: por que ler a obra prima de J.D. Salinger? Por Amanda Leonardi

Publicado em 1951, o romance O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, tornou-se um clássico da literatura americana. O livro conta sobre a vida de um jovem de dezessete anos chamado Holden Caulfield, que vive em Nova York, já foi expulso de várias escolas, não consegue ter interesse em nenhuma das matérias da escola e é de certa forma bem rebelde e um pouco inocente ao mesmo tempo. Alguns podem julgá-lo imaturo por suas atitudes inocentes, ou talvez pela aparente ausência de praticidade em seus ideais, mas Holden Caulfield é, na verdade, apenas um jovem que não consegue encontrar seu lugar no mundo principalmente por discordar da forma superficial como todos lhe parecem.

O livro é narrado em primeira pessoa, portanto, pode-se praticamente ouvir os pensamentos de Holden Caulfield ao passo em que se avança a leitura do romance. O jovem conta não sua vida toda, mas um período desde que foi expulso de sua última escola e passou por uma série de acontecimentos que o fizeram crescer e compreender melhor o mundo e a si mesmo. O romance começa com Holden já dizendo que tudo que será narrado foram fatos que ocorreram há um ano – ele tinha dezesseis quando os vivenciou e nos conta já com dezessete, depois de ter sido internado em uma instituição de reabilitação.

Resumindo, é um romance que trata de crescimento, sim, mas não é para adolescentes, como alguns poderiam julgar pelo fato de o protagonista ser um adolescente. É um livro que trata de questões existenciais como encontrar sua identidade no mundo, de autoconhecimento, de uma busca por algum significado na vida. Ou seja, é um livro para todos.

O estilo do romance de Salinger é altamente inovador: nele não temos um narrador em terceira pessoa ou um simples narrador em primeira pessoa nos contado as coisas como elas ocorreram de forma cronológica e objetiva – temos um narrador em primeira pessoa realmente de dezessete anos, que realmente representa o protagonista, nos contando sobre sua vida de forma pessoal e muitas vezes subjetiva, com uma linguagem que um adolescente usaria de fato. O texto é marcado pela constante presença de gírias típicas da época em que o livro foi escrito – entre as décadas de 40 e 50. Porém, não é somente a presença das gírias que torna o vocabulário jovial e vívido: o texto flui de uma forma natural, soa como os pensamentos de um jovem, sem nenhuma construção forçada, nenhuma frase de efeito mais rebuscada. O que não significa que o romance não tenha frases marcantes e um estilo literário único – praticamente lírico em algumas partes, pois Holden é sensível, inocente (apesar de rebelde e desregrado), vê o mundo de uma forma muito única, o que o torna extremamente carismático.

Salinger conseguiu construir o personagem de forma tão detalhada que quase parece que Holden é real: o jovem tem um estilo próprio de pensar e falar, tem manias próprias, tem uma história de vida que, apesar de não contada de forma cronológica, nos é mostrada com um recorte sabiamente construído, nos revelando importantes partes do passado do personagem através de suas memórias. E principalmente: o psicológico de Holden Caulfield é muito bem desenvolvido.

Ele não é um personagem plano, somente bom ou somente mal, certou ou errado, não é um estereótipo, ele é um adolescente que é ao mesmo tempo inocente, sensível e rebelde, sem rumo, sem um lugar na sociedade. Holden não é apenas um retrato fixo, pintado com palavras imóveis, ele é um ser humano construído com as palavras de Salinger, com uma grande profundidade psicológica que vai além da superfície limitada de muitos personagens. Ele é praticamente uma pessoa que nasceu na literatura, um personagem altamente vívido, cujos pensamentos e ações são justificados por sua personalidade.

Portanto, utilizando de uma linguagem leve, praticamente coloquial, para construir a mente de um jovem, Salinger inovou, escrevendo uma obra única que definitivamente marcou época e influenciou gerações. A importância da obra é tanta que não se limita à literatura: chega à cultura popular em geral, sendo muito comentada em filmes, músicas, e até teorias concspiratórias, como foi o caso do assassino de John Lennon. O homem disse ter lido O Apanhador no Campo de Centeio e isso o influenciou a assassinar um ser humano. Obviamente, o homem não compreendeu bem a significado dessa profunda obra de Salinger.

O que nos leva a pensar o que pode haver de tão significativo nesse romance, para chegar ao ponto de que, se mal compreendido, pode chegar a causar um impacto tão forte no raciocínio de uma pessoa – não que possa transformar alguém em um assassino, mas pode causar diferentes impactos em diferentes pessoas. Entretanto, se bem compreendido, pode mudar a forma de pensar de quem o lê, libertando o leitor e não o levando à prisão.

O Apanhador no Campo de Centeio é um clássico da literatura americana, leitura exigida em muitos colégios americanos, estudado em cursos de literatura por todo o mundo. Por que tantos estudos sobre um livro que narra os pensamentos de um adolescente perdido? Porque muitos se identificam com o protagonista, seja por também estarem perdidos, sem lugar na sociedade, sem nenhum rumo planejado, seja por serem contra a superficialidade que Holden tanto odeia ou porque em algum lugar dentro de cada um ainda haja algo da inocência que Holden tanto sonha em preservar, salvando as crianças de caírem do campo e centeio.

Dito isso, ainda há mil motivos porquê um ser humano precisa ler O Apanhador no Campo de Centeio. E talvez ler não seja, ainda, a palavra certa: o correto seria dizer que todo bom leitor – ou ser humano com qualquer questionamento sobre si mesmo ou o mundo onde vive – precisa saborear a obra prima de Salinger, prender-se a cada palavra, compreendendo ao todo o significado deste clássico. Ou os significados, pois todo bom clássico há de ter diferentes possibilidades de interpretação e este não é uma exceção neste ponto.

Fato é que uma interpretação feita por uma mente inclinada a atos homicidas pode até tentar utilizar a revolta de Holden como filosofia própria para defender seus crimes, como fez o assassino de John Lennon e outros dois assassinos. Isso demonstra, não que o livro pode tornar alguém um assassino, mas que pode ter um impacto muito forte que, dependendo da linha de raciocínio do leitor, pode voltar-se em diferentes direções. No caso acima citado, não foi na melhor direção possível e, com certeza, não aquela pretendida por Salinger ao escrever o livro.

O Apanhador no Campo de Centeio é um romance altamente subjetivo, cujo significado acaba sendo muito pessoal para cada leitor, talvez isso tenha ocasionado o fato de um assassino dizer que se identificou com Holden Caulfield e por isso cometeu um crime. O fato é que as buscas de Holden por si mesmo pela cidade de Nova York representam a busca dele em si mesmo, o que todos conseguem se identificar se não se sentem confortáveis no mundo onde vivem. Esse é um livro capaz de fazer o leitor sentir que pertence a este mundo, que existem mais pessoas tão perdidas quanto ele, como Holden.

O romance é capaz de despertar no leitor um pouco de apanhador no campo de centeio realmente, algo desse sentimento do protagonista que é inerte a todo ser humano, porém muitos ficam cegos com a superficialidade do mundo “adulto” – o mundo cheio de ordem e ambições imposto aos adultos – e acabam achando Holden inocente demais, alguns até chegam a julgá-lo imaturo. Porém, conceitos de maturidade ou imaturidade não são realmente o ponto mais importante do livro.

É, sim, uma trajetória de crescimento, mas não em direção a idade adulta apenas, em direção a si mesmo, em direção a se conhecer e aceitar-se como indivíduo, como ser humano, e não se contentar a ser só mais um adulto vazio em uma sociedade superficial. Mas Holden Caulfield também não é perfeito, ele não é um jovem sonhador, inocente, uma espécie de Peter Pan adolescente, embora o seu desejo de salvar as crianças do mundo adulto de certa forma o assemelhe ao personagem da literatura infantil. Holden é um jovem que está crescendo, está se tornando adulto, portanto, apesar de odiar o mundo superficial destes, ele não é um menino inocente: Holden mente, adora mentir até sobre o próprio nome, ele mata aulas, briga com colegas, é expulso de escolas, mente para os pais.

Sintetizando tudo isso: Holden Caulfield é um adolescente de carne e osso, que tem princípios e defeitos. O mais interessante nesta obra é exatamente isso – como o protagonista consegue ter uma personalidade ao mesmo tempo tão puxada para dois extremos, o lado inocente e o lado rebelde, e isso ter uma verossimilhança tão grande. Porém, vendo por outro ponto de vista, tal fusão de extremos faz muito sentido de fato: a sociedade que o cerca é fria, cega, presa a correntes que os mantém no nível aceitável socialmente, para aparentar que são felizes, apesar de, por trás das máscaras, serem todos insatisfeitos, presos a eles mesmos, acomodados em sua queda. Todos que seguem as regras da sociedade superficial têm um lugar nesta, mesmo que seja em uma queda, eles têm um mapa de suas mentes, por isso parecem – talvez realmente sejam – tão vazios como Holden os vê.

Já Holden é o contrário de tudo isso, o que não quer dizer que ele também não se sinta em queda, preso também de alguma forma. Tanto é que o jovem realmente reclama de tudo e de todos, e são poucas coisas, geralmente coisas simples, pouco notadas pela maioria, que o agradam. Mas Holden deseja a liberdade, e a encontra em coisas bem simples como ser capaz de observar o lago congelado e divagar a respeito do destino dos patos, para onde eles vão quando o lago congela? – imagina Holden. Tal divagação do protagonista pode ser um símbolo para o seu temor de para onde vai a inocência, a essência do ser humano quando sua alma congela. O jovem Holden é um símbolo da quebra do adolescente com o mundo adulto, da tentativa de construir um mundo novo com a nova geração, de uma tentativa de salvar o futuro, de impedir que as crianças caiam do campo de centeio e se tornem também adultos frios, vazios, consumistas e superficiais.

Por isso todos precisam ler e reler O Apanhador no Campo de Centeio, para lembrar de Phoebe no carrossel, aos dez anos de idade, dizendo que está muito velha para isso mas se divertindo como se tivesse seis anos. Para lembrar que não precisamos deixar de ser nós mesmos depois dos vinte, dos trinta, dos quarenta, ou até dos oitenta anos. Para lembrar que não é preciso, na verdade, se preocupar tanto com a queda do campo de centeio, pois o próprio protagonista acaba por compreender como é possível sobreviver a tal queda. Esse é um livro que pode ajudar o leitor a se encontrar, caso esteja perdido, que pode fazer refletir sobre como se caiu do cmapo de centeio e porquê – e o mais importante: como sobreviveu a tal queda.

E se nenhum dos motivos já citados neste artigo fizerem sentido para algum leitor, ainda assim a leitura do livro é tão acolhedora que os pensamentos do jovem Holden é praticamente uma forma de se sentir em casa. O personagem de Salinger é tão vívido e carismático que muitas vezes parece que suas palavras não estão somente escritas no papel, mas gravadas na alma de quem o lê. Ler esse livro é como conversar com Holden, é como conversar com Salinger. Porque Salinger é um daqueles autores que dá vontade de, depois de terminar de ler um livro seu, tê-lo como um grande amigo para poder ligar e conversar a hora que quiser, como Holden diz que ocorre, raramente, com alguns autores.

“What really knocks me out is a book that, when you’re all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn’t happen much, though.”

― J.D. SalingerThe Catcher in the Rye

COMPORTAMENTO · SAÚDE

ENVELHECER. por Roberto Miranda

ENVELHECER

Adaptar-se ao envelhecimento garante mais qualidade de vida na terceira idade. Para isso, é preciso saber conviver com problemas e limitações que podem surgir.

A capacidade de poder realizar as atividades cotidianas, desde as mais básicas como alimentar-se, tomar banho e andar, até as mais complexas como administrar as finanças e realizar atividades de lazer, são fundamentais para uma vida plena. Para isso o idoso precisa estar com suas plenas capacidades físicas, mentais e emocionais, a fim de poder cuidar da própria vida e dar sentido para a própria existência.

Para algumas pessoas há o medo da velhice, da solidão e o senso de sentir-se menos competente para realizar suas atividades cotidianas ou sua capacidade de tomar decisões e governar sua vida influencia na maneira como cada um enfrenta e vive o envelhecimento.

Idosos que não conseguem se adaptar a essas mudanças acabam se isolando socialmente diminuindo a interação com outras pessoas, o que pode levar a perda da satisfação com a própria vida, do prazer e da motivação, comprometendo suas capacidades físicas, intelectuais e emocionais.

Para os indivíduos que apresentam alguma doença crônica, como diabetes, colesterol alto, artrite reumatoide, hipertensão, adaptar-se ao processo de envelhecer juntamente com essas doenças pode ser mais trabalhoso, mas não impossível, além de ajudar a diminuir o impacto da doença na qualidade de vida e evitar maiores comprometimentos.

É necessário reavaliar as possibilidades, redefinir metas e alterar estratégias de enfrentamento do ambiente e dos próprios sentimentos para poder se adaptar as novas demandas dessa fase da vida e vive-la da melhor maneira possível, mesmo que acompanhada de doenças crônicas e limitações físicas.

Com o aumento geral da população idosa, torna-se importante garantir aos idosos não apenas maior longevidade, mas felicidade e satisfação com a vida. Pesquisas são realizadas no mundo todo com o objetivo descrever os fatores associados ao grau de satisfação com a vida entre a população de idosos.

Um estudo recente publicado, em janeiro de 2014, no Canadian Medical Association Journal pesquisou a relação entre o prazer com a vida e o declínio da função física em idades mais avançadas. Participaram 3199 homens e mulheres com idade acima de 60 anos.

Nesta pesquisa foi verificado que pessoas que tem mais safisfação com a vida, ou seja, que expressam sentimentos de felicidade e prazer vivem até 8 anos mais e em condições físicas melhores do que as pessoas que não estão satisfeitas com suas vidas.

Em 2012, um estudo realizado por pesquisadores da University College London (UCL), no Reino Unido, conclui que os idosos que gostam da vida tendem a viver mais e com uma condição física melhor do que os indivíduos infelizes. Os pesquisadores avaliaram até que ponto eles tinham dificuldade em realizar atividades diárias, como tomar banho ou se vestir, o estudo descobriu que as pessoas que tinham um baixo senso de bem-estar foram três vezes mais propensas a ter problemas em realizar atividades diárias.

O estudo mostra que pessoas em idades avançadas e que estão felizes e aproveitam a vida mostram declínios mais lentos na capacidade física. Ou seja, conseguir adaptar-se as mudanças ao longo do processo de envelhecimento e encontrar formas alternativas de aproveitar a vida e ficar feliz com o que realiza contribui para uma vida mais longa e saudável.

Escrito em conjunto com Mariela Besse, terapeuta ocupacional do Instituto Longevità. Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Mestre em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo. Afiliada à Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de São Paulo. Membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.