CINEMA · LIÇÃO DE VIDA

HUMANO – uma viagem pela vida

O filme Humanos, foi lançado de maneira pouco usual: em vez de estrear em cinemas, sua primeira projeção foi feita no Salão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Pela primeira vez, um filme servia de porta-voz dos povos representados na ONU. É exatamente essa a percepção que se tem ao assisti-lo. Em duas horas e vinte e três minutos, “Humano” resume mais de duas mil entrevistas realizadas em 63 países pelo fotógrafo, diretor e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand. Há depoimentos de refugiados sírios, veteranos de guerra dos Estados Unidos, condenados à pena de morte, camponeses, aborígenes e do uruguaio José Mujica, ex-guerrilheiro que ficou dez anos na solitária e foi eleito presidente do Uruguai.

Os relatos contrapõem diferentes visões de mundo, mostrando como varia o entendimento que cada um pode ter daquilo que faz de nós seres humanos. “As entrevistas nos contam sobre todos os assuntos, das dificuldades em crescer à busca por amor e felicidade”, diz Yann Arthus-Bertrand.

No coração do filme, contudo, estão grandes problemas da humanidade: pobreza, guerra, imigração, consumismo, homofobia. Conhecido pelas incríveis fotos do livro “A Terra Vista do Céu”, que vendeu mais de 3 milhões de cópias, Yann usa belas tomadas aéreas no filme, que intercala os depoimentos a cenas de forte impacto visual.

Há nômades cruzando o deserto, bandos de aves migratórias, mercados, lixões — imagens que reforçam o que os entrevistados dizem. “Foi em rostos, olhares e palavras que encontrei uma poderosa forma de alcançar as profundezas da alma humana”,afirma o diretor.

Este documentário incrível pode ser visto no Netflix e vale muito a pena!

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CINEMA · COMPORTAMENTO

VAN GOGH INSPIRA FILME 100% FEITO COM TINTA A ÓLEO * 

Após ler mais de 800 cartas escritas por Vincent van Gogh (1853-1890), a polonesa Dorota Kobiela levou ao pé da letra o último texto do pintor, que diz: “Não podemos falar senão por meio das nossas pinturas”.
Kobiela e Hugh Welchman criaram a primeira animação feita totalmente com tintas a óleo. Foram necessários 125 profissionais para pintar manualmente 65 mil quadros. O resultado é o filme “Com Amor, Van Gogh”, exibido na Mostra.
A animação conta a vida e a controversa morte de Van Gogh por meio de entrevistas com personagens próximos ao artista e que foram retratados em suas obras.
O processo envolveu uma gravação com atores, como Douglas Booth e Saoirse Ronan. Depois, cada “frame” do vídeo recebeu uma pintura a óleo, ao estilo do holandês. Para executar esse projeto, com um trabalho manual em cada um dos quadros, foi necessário um processo seletivo para montar uma equipe de pintores.
Piotr Dominak, responsável pelas pinturas no longa, analisou mais de 5.000 portfolios. Somente 130 candidatos foram chamados para fazer cursos intensivos (sobre a técnica da pintura de Van Gogh e sobre animação), e apenas cinco não ficaram para o trabalho final.
Segundo a diretora, a maior dificuldade foi manter os mais de cem pintores no mesmo caminho para que seguissem um estilo único, e não o deles. “Tive de corrigir mais de 500 quadros por dia”, diz à Folha.Na época em que leu as cartas, Kobiela passava por um período de frustração.
“Queria fazer um trabalho próprio e pensava em criar séries de pinturas ou escrever o roteiro de um filme. Resolvi combinar os dois.”
AMOR FORA DA TELA
O projeto se concretizou quando Kobiela conheceu Hugh Welchman, britânico que já tinha levado o Oscar com o curta “Pedro e o Lobo”, em 2008, e estava na Polônia para produzir uma animação sobre Chopin.Os dois acabaram se apaixonando. “Ele obviamente ficou interessado não só em mim, mas também nas coisas em que eu estava trabalhando”, diz a diretora.
Para ela, desenvolver o filme foi como montar um quebra-cabeças gigante em que faltavam peças. “Ao ter que casar o roteiro com as obras escolhidas, mantendo fidelidade aos fatos da vida do pintor, não dava muito espaço para manobras.”
O filme, que deve ser lançado comercialmente no Brasil em novembro, saiu do papel após mais de dois anos de testes e discussões.Só depois de encontrar os primeiros financiadores e parceiros é que se pôde dar início ao projeto. O custo total foi de US$ 5,5 milhões (cerca de R$ 18 milhões).

*materia publicado no jornal Folha de São Paulo, em 28/10/17, caderno ilustrada, por Arthur Cagliari

COM AMOR, VAN GOGH

(LOVING VINCENT)

DIREÇÃO Dorota Kobiela e Hugh Welchman

ELENCO Douglas Booth, Robert Gulaczyk, Eleanor Tomlison

PRODUÇÃO Polônia, Reino Unido, 2017, 12 anos

MOSTRA sáb. (28) e dom; (29), às 21h40, no Espaço Itaú Frei Caneca; seg. (30), às 14h, no Playarte Splendor Paulista; ter. (31), às 22h45, no Cinesesc; qua. (1º), às 21h, no Espaço Itaú Frei Caneca 

CINEMA · COMPORTAMENTO · LIÇÃO DE VIDA · VIAGENS

Festival de cinema de Veneza destaca o protagonismo de personagens idosos

Pelas ruas do Lido, já se entreouve o apelido deste Festival de Veneza: “edição da terceira idade”. Após “Nossas Noites”, sobre o romance entre vizinhos idosos (Jane Fonda e Robert Redford), a mostra italiana trouxe no domingo (3) dois filmes destacando questões dessa faixa etária.”The Leisure Seeker”, de Paolo Virzì, mostra a viagem de trailer de um casal de velhinhos. E “Victoria e Abdul”, de Stephen Frears, apresenta a amizade de uma velha rainha com um súdito indiano.

Muito aplaudido na competição oficial, “The Leisure Seeker” traz Helen Mirren no papel de uma mulher que tem câncer, mas arranja forças para cuidar do marido (Donald Sutherland) com Alzheimer. Mas não é um filme depressivo: a dupla vive instantes solares numa aventura pelo sul americano. No caminho, testemunha cenas dos EUA atual, em que imigrantes tentam uma nova vida e a classe média faz passeata pró-Trump.

“Amo a personagem porque ela enfrenta o fim da vida cheia de energia”, disse Mirren a jornalistas. “E espero me manter assim até meu final.”
É o primeiro filme do italiano Virzì (“Loucas de Alegria”) nos EUA. “Há momentos em que um olhar estrangeiro é melhor para uma cultura, dá uma nova profundidade”, afirmou a atriz.
“[Para compor um painel dos EUA] Incluí Hemingway, a tradição do road movie e até a questão Trump. Se bem que esta última não está bem no mesmo nível”, disse o diretor. “Achei relevante mostrar essa América que está mudando, que os protagonistas talvez não reconheçam mais.”
A atuação de Mirren já a faz despontar como favorita à Coppa Volpi de melhor atriz. Mas ela teria em Judi Dench uma rival à altura se “Victoria e Abdul” não estivesse em Veneza fora de competição.
No longa, Dench faz sua especialidade: uma monarca britânica. A divertida comédia de Frears traz luz a um fato pouco conhecido da vida da rainha Vitória: sua complexa relação afetiva com um rapaz indiano, que a torna mais próxima de suas colônias.

A interação racial é um dos temas. “É como ‘Minha Adorável Lavanderia’, só que, em vez de Daniel Day-Lewis, temos Judi Dench”, brincou Frears, sobre seu filme de 1985.
Também com os olhos no passado, mas sem deixar de refletir sobre o presente, o francês Robert Guédiguian exibiu em competição o belo “La Villa”, em que advoga os valores de sempre: empatia e solidariedade. E inclui a questão dos refugiados na Europa.
A trama começa com uma situação-clichê: um homem à beira da morte força os três filhos a se reunirem, em um acerto de contas familiar. Mas o longa tem como foco uma vila em que, antes, se tinha um estilo de vida mais atento ao “outro”. Defende o resgate de um passado ao qual parece cada vez mais difícil retornar.
“Tendemos a achar obsoleta uma série de ideias importantes de antigamente”, disse Guédiguian. “Mas é preciso assimilá-las de modo crítico.” 

Matéria publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, 04/09/17, caderno ilustrada, por BRUNO GHETTI

CINEMA · COMPORTAMENTO · CRÔNICAS · LIÇÃO DE VIDA · SAÚDE

A VIDA (VELHA) COMO ELA É.       por Giuliano Cedroni

“Eu não sei.”
Depois de meses pesquisando a extensa e impressionante obra da fotógrafa anglo-brasileira Maureen Bisilliat, de mais de sete horas de conversas, de passar alguns dias com a lente da Alexa colada nessa senhora de 86 anos, essa foi sua frase mais corajosa.
“Eu não sei”, repetia ela para a câmera de tempo em tempo, não sem antes refletir ponderada e delicadamente a cada pergunta. Maureen, que se embrenhou nos fundões do Brasil ainda nos anos 1960 para revelar o Xingu aos brasileiros em fotografias clássicas, referia-se não às questões de enquadramento, luz e ótica, mas às grandes questões da vida, como amor, família, arrependimentos.O envelhecimento da população é um dos maiores triunfos da humanidade e também um de seus grandes desafios. A proporção de pessoas com 60 anos ou mais está crescendo mais rapidamente que a de qualquer outra faixa etária.

Até 2025, espera-se um crescimento de mais de 200% (algo em torno de 600 milhões) no número de pessoas consideradas velhas no mundo. Por mais que o mercado e a propaganda tentem esticar a juventude à base de slogans como “a melhor idade”, a velhice é um fato -e, pasmem, não é uma palavra pejorativa.
“De época remota”, “que tem idade avançada”, “que tem muito tempo de existência”. Eis algumas definições oferecidas pelo dicionário quando buscamos a palavra “velho”, que vem do latim vetulus. Em nenhuma existe a sugestão de que a velhice esteja inexoravelmente ligada a algo negativo.Ainda assim, a publicidade conseguiu convencer bilhões de pessoas de que ser considerado velho é das piores coisas que podem acontecer a um ser humano.

Por princípio ninguém quer contratar um velho, namorar um velho, abrir um negócio com alguém considerado velho. No entanto, quando nos deparamos com situações-limite na vida, é na velhice que, ironicamente, encontramos confiança. Basta precisar escolher um piloto para um voo ousado ou um cirurgião para uma operação de risco.
IMAGEM TABU
Foi por causa de dados e incongruências como esses que iniciamos uma análise midiática sobre o tema antes de rodar a série “Outros Tempos_VELHOS”, em cartaz no canal MAX (terças, às 23h).
A velhice é constantemente mencionada na imprensa, em novelas e em palestras, mas poucas vezes mostrada. É mais palatável levar um gerontólogo a um programa matutino para falar sobre Alzheimer do que ir à casa de alguém que está perdendo os sentidos para registrar o processo.
Também ficou claro na pesquisa que a imensa maioria dos programas e reportagens sobre a velhice no Brasil prefere olhar o tema sob uma perspectiva positiva. Senhores atletas, senhoras tatuadas e outros idosos animadíssimos inundam telas e páginas da mídia como se fossem um retrato fiel dessa classe.
Basta olhar ao redor para encontrar exemplos nada glamorosos da velhice: septuagenários deprimidos, senhorinhas sem recursos para arcar com os cuidados necessários, filhos que não sabem como lidar com essa etapa da vida dos pais…
Logo no início do processo de criação da série documental, impunha-se o desafio: mostrar a velhice de forma crua, mas digna, sem recorrer a especialistas ou estudiosos. Só ligaríamos as câmeras diante dos velhos e velhas acima dos 60 anos.
A SOLIDÃO DE NEY
Ney Matogrosso foi das figuras mais impressionantes a despontar no processo de definição dos 16 protagonistas. Aos 76 anos, alcançou equilíbrio raro entre ética, estética e postura. Postura em relação à arte, ao sexo, à política, ao dinheiro, à mídia, postura de corpo.
Foi no conceito do “ser independente” que o jovem filho de militar se encontrou, deixando para trás uma vida castradora para se transformar em grande artista. Pode-se não gostar da música de Ney, mas só o mais preconceituoso não respeitará a trajetória do intérprete que é, segundo ele próprio, “homem, mulher, ave, bicho… estrela”. Sobretudo, independente.
Essa independência, entretanto, deixou-lhe uma herança palpável na terceira idade, a solidão. Depois de ter vivido três grandes amores -um deles com Cazuza-, ele hoje vive só. Entre os treinos de academia, ensaios com músicos ou momentos dedicados a desenhar retratos de estranhos, atravessa a velhice sem companhia afetiva. “Agora vou ter que encarar mais essa”, diz, resiliente.
Em tempos de discussão febril sobre a reforma da Previdência, vale olharmos com mais afinco para essa fase da vida. Entre 1980 e 2000, a população brasileira com 60 anos ou mais cresceu 7,3 milhões, totalizando ao fim do século mais de 14,5 milhões de indivíduos. O aumento da expectativa média de vida também foi sensível, oscilando de 45,5 anos em 1940 para 75,5 anos em 2015.
Estudos contemporâneos já dão conta do nascimento de uma “quarta idade”, que começaria após os 80 anos. De fato, o octogenário é ser humano bem distinto de seu par com “apenas” 60 primaveras…
MAGNATA DO ADUBO
É o caso de seu Fernando Cardoso, com seus impressionantes 102 anos e aparência de 70. Ainda na juventude, nos anos 1940, ele atentou para o imperativo de produzir alimentos em escala. Fundou então a empresa de adubos Manah, aquela do slogan “Com Manah, adubando dá”.

Logo aquilo viraria um pequeno império. No ínterim, seu Fernando formou uma família enorme. No ano 2000, descansou satisfeito quando a empresa foi vendida por uma soma vultosa. Missão cumprida, faz crer o modelo capitalista ocidental. Mas a velhice é mais complexa do que imaginamos…Depois de perder a mulher, seu Fernando dispunha de algumas opções de moradia. Os filhos disputavam-no, alegando que a casa dele era grande demais para um homem só. Sem alarde, o industrial escolheu viver num lar de idosos.

Decidiu passar a fase final da vida ao lado de seus pares. Algo o deixa mais tranquilo ali, no casarão adaptado para cadeiras de roda e banhos assistidos, do que solitário em seu palacete.
Na conversa que tivemos para a série, a visão de seu Fernando sobre o ambiente ilustra a forma como o tempo brinca com anciãos. Diante da constatação de que o manejo dos recursos naturais pelo homem era visto com muito menos rigor na juventude dele do que hoje, palpita: “Esses ambientalistas fizeram uma confusão danada”.
HERMETO, O REBELDE
Hermeto Pascoal, 81, tem uma visão mais moderna da natureza. Na infância, passada no sertão de Alagoas, conheceu os deleites da mata de forma lúdica e nada monetizada. Caótico no pensamento, na maneira de viver e na sua expressão artística -a música-, Hermeto está mais conectado com o pensamento verde contemporâneo que seu Fernando, com quem divide um episódio do programa.
Enquanto o industrial não esconde o cansaço diante de tantas transformações, Hermeto é revolucionário -e isso até na forma como administra seus bens, as milhares de composições que criou ao longo da vida. Em determinado momento, ele abriu mão dos direitos autorais de sua obra, aplicando um magnífico golpe “copyleft” (livre direito de cópia) no coração do capitalismo.
O gesto de rebeldia, descobrimos ao nos aproximar de seu círculo íntimo, não levou em conta justamente a família, beneficiária da eventual herança.Dos 16 personagens retratados nos oito documentários (um famoso e um anônimo por episódio), nenhum causou tanto assombro na equipe quanto José Virgulino, o Zezinho, 76, que passou a vida na ilha do Araújo, em Paraty (RJ).

Católico fervoroso, pescou no mar o seu sustento e casou-se com Dorvalina. Logo veio a primeira gravidez, interrompida por complicações. Na segunda, novamente a criança não “vingou”. Ao longo da vida, dona Dorvalina engravidou dez vezes; em todas as ocasiões, a criança ou nascia sem vida, ou falecia dias depois do parto.
Quando o convidamos a participar da série, Zezinho tinha perdido a companheira havia apenas três meses. Sua visão de mundo, a maneira de lidar com a dor e a generosidade com a vila de pescadores são mais valiosos no estudo da velhice que volumes inteiros da sociologia moderna. Naturalmente e sem estudos formais, Zezinho foi virando o líder espiritual de sua comunidade, onde ganhou o apelido carinhoso de Pai Zezinho. 
Seu par no episódio é a mais pop das líderes espirituais no país, Monja Coen, 70, que alcançou status similar ao de Zezinho por caminhos distintos.
Depois de uma incursão pelo jornalismo, a jovem foi parar na Europa, onde acabou presa por tráfico de drogas.

Na solidão da cela, a meditação foi sua grande companheira, e daí para a vida monástica foi um caminho natural, afirma ela. Mas a sobreposição das duas trajetórias, minuto a minuto, cria uma terceira narrativa, a de que não controlamos a vida como desejamos.
Coen e Zezinho não poderiam ser mais diferentes, mas algo em suas vidas os aproximou. Não na forma, não no discurso, mas na necessidade de acreditar que é preciso haver algo mais nessa jornada que apenas peixe e jornal.
BRASIL IDOSO
Até 2025, segundo a OMS, o Brasil será o sexto país em número de idosos. Ainda há muita desinformação sobre a saúde do idoso e as particularidades e desafios do envelhecimento populacional para a saúde pública. Mas é fato que os brasileiros vão viver mais e que a população vai envelhecer.
Um caso de envelhecimento excêntrico é o da editora de moda Regina Guerreiro, 77. Aquela que foi por décadas a mulher mais temida e respeitada da indústria da moda no Brasil dedicou sua vida ao trabalho. Casou-se várias vezes, mas não teve filhos, e nunca escondeu que sua grande paixão estava na vida profissional. Passa os fins de semana sozinha, lembrando seu passado glamoroso enquanto dirige a criação de uma versão fantasiosa de seu próprio funeral.
Vilma Nishi, 67, é a personagem mais nova. Depois de uma temporada trabalhando como enfermeira em hospitais, começou a estudar os benefícios do parto normal e transformou-se numa das parteiras mais procuradas do Brasil.

Divorciada e com duas filhas, hoje toma conta de sua mãe, uma senhora acamada que mais parece personagem do cineasta japonês Akira Kurosawa. Essa casa, com quatro mulheres de diferentes idades, é dos lugares mais simples e intrigantes de toda a série. Ali não há grandes obras de arte nas paredes (como na casa de Emanoel Araujo), ou uma biblioteca singular (como no escritório de Hélio Bicudo). Mas algo insiste em chamar a atenção. Logo se percebe que é o amor, matéria-prima de que Vilma se serve fartamente na construção de sua velhice.
É respectivamente com Regina e Vilma, com a imagem de uma morte encenada e a de um parto bem real, que o retrato da velhice no Brasil se abre e se fecha.
Muitos me perguntam o principal aprendizado que a longa pesquisa sobre a terceira idade legou. Minha resposta é a de que a velhice é a soma de todas as nossas decisões -certamente a das grandes, como a relação com família e amigos, a escolha da carreira, o fato de ter ou não filhos, a posição política.Ao mesmo tempo, muito tem a ver com as decisões médias, como o abandono de uma faculdade, a troca repentina de emprego, o investimento numa grande viagem.

Mas a velhice também é, curiosamente, a soma das pequenas decisões do cotidiano, como o “sim” para o almoço repentino com um amigo distante e o “não” para um trabalho desrespeitoso, porém lucrativo. Ou o simples ato de baixar o celular numa praça para observar as pessoas à volta.
Como me ensinou um velho cearense, tudo o que pensamos e falamos não chega perto, em importância, da maneira como agimos. Contudo, basta uma reflexão mais calma sobre o que aprendi com a pesquisa acerca da velhice para me confrontar mais uma vez com a frase de Maureen: “Eu não sei”.

*GIULIANO CEDRONI,* 44, fotojornalista, repórter e roteirista, escreveu e codirigiu, ao lado de Eduardo Rajabally e Susanna Lira, a série “Outros Tempos_VELHOS” (Prodigo Films), em exibição no canal MAX.  Texto extraído do jornal Folha de SP, caderno ilustríssima em 20/8/17